Astronomia
Chandra explica a "clave de sol" escondida atrás da Via Láctea: um buraco negro e dois enxames em colisão
Chegou a ser tomada por um pulsar. Afinal, a forma sinuosa captada por radiotelescópios fica a cerca de 1.550 milhões de anos-luz e nasceu de duas etapas: uma erupção de um buraco negro supermassivo e, mais tarde, o choque entre dois enxames de galáxias.

Uma equipa de astrónomos usou o observatório de raios X Chandra, da NASA, para perceber a origem de uma formação de ondas de rádio com um desenho curioso: um traço vertical que serpenteia de cima a baixo e lembra uma clave de sol. A NASA divulgou o resultado a 14 de outubro, no mesmo dia em que o estudo, liderado por Andrea Botteon, do Instituto Nacional de Astrofísica de Itália (INAF), saiu na revista Astronomy & Astrophysics. A conclusão é que a forma resulta de dois acontecimentos separados no tempo, num enxame de galáxias a cerca de 1.550 milhões de anos-luz da Terra.
Um objeto difícil de ver
A fonte, catalogada como VLSS J0318.9+5755, já tinha aparecido em observações de rádio anteriores. Segundo o artigo científico, chegou a ser tomada por um pulsar, até se sugerir que estaria num enxame de galáxias muito tapado. O problema é a posição: fica quase exatamente atrás do plano da Via Láctea, na constelação da Girafa, e as estrelas, o gás e a poeira da nossa galáxia bloqueiam a maior parte da luz visível que vem dali.
Para contornar esse obstáculo, a equipa juntou instrumentos que conseguem ver através desse material. O Chandra, com quatro observações feitas em abril de 2026, e o telescópio alemão eROSITA detetaram gás difuso a milhões de graus no local, sinal de que a Clave de Sol pertence a um enxame. Mais do que isso, os dados mostraram que se trata de dois enxames em plena fusão. A imagem divulgada combina esse gás (a azul) com as ondas de rádio registadas pela rede europeia LOFAR (a cor-de-rosa) e dados de infravermelho do telescópio britânico UKIRT, e cobre cerca de 6 milhões de anos-luz.
Uma erupção e, depois, um choque
Segundo os autores, tudo começou com uma erupção do buraco negro supermassivo no centro do enxame, que lançou nuvens de partículas carregadas e campos magnéticos a uma velocidade próxima da da luz. Essa nuvem brilhou em rádio e foi-se apagando à medida que as partículas perdiam energia. Mais tarde, a colisão entre os dois enxames comprimiu a nuvem e voltou a acendê-la, possivelmente com a ajuda de ondas de choque parecidas com o estrondo de um avião supersónico. É o que os astrónomos chamam uma fénix rádio.
Para confirmar o choque, a equipa retirou da imagem de raios X a forma oval e simétrica do gás quente e analisou o que sobrava. O resíduo é mais brilhante à esquerda e à direita do centro, o que indica que os enxames colidiram nessa direção. Os investigadores estimam que o embate direto aconteceu há algumas centenas de milhões de anos e que os dois grupos de galáxias estão agora a afastar-se.
A semelhança com a clave de sol não tem qualquer significado científico. A NASA descreve-a como um caso de pareidolia, a tendência para ver formas familiares em padrões aleatórios. No artigo, os autores apontam a fonte como um alvo ideal para observações de muito baixa frequência com o LOFAR2.0.



