Astronomia
Hubble encontra indícios de um planeta que nasceu depois da morte da sua estrela
Estavam no arquivo desde 1999: cerca de 100 sinais químicos que ninguém conseguia identificar. Jamie Williams, doutorando na Universidade de Warwick, percebeu que eram nióbio, a pista de um planeta formado com os restos de uma estrela morta.

Há mais de 25 anos que o arquivo do telescópio espacial Hubble guardava um enigma. Em 1999, o Hubble observou a anã branca HS 0209+0832 e registou cerca de uma centena de assinaturas químicas que os astrónomos não conseguiram atribuir a nenhum elemento. O caso ficou parado até Jamie Williams, doutorando na Universidade de Warwick, no Reino Unido, voltar a esses dados com uma base de dados química atualizada. Muitas das linhas misteriosas correspondiam a nióbio.
O resultado, publicado na revista Nature Astronomy e divulgado pela ESA a 5 de outubro, aponta para algo que nunca tinha sido observado: um planeta que se terá formado com o material expelido por uma estrela ao morrer, e não com a nuvem de gás e poeira em que ela nasceu. Os astrónomos chamam-lhe planeta de segunda geração. Já se conhecem alguns planetas em órbita de anãs brancas, mas este é o primeiro candidato com sinais de ter nascido depois da estrela.
Porque é que o nióbio conta a história
Uma anã branca é o núcleo que sobra de uma estrela de pequena massa depois de esgotar o combustível nuclear e de perder as camadas exteriores para o espaço. O nióbio e os outros elementos mais pesados do que o ferro não se formam por fusão no núcleo das estrelas. Segundo Nicholas Stone, astrofísico teórico da Universidade do Wisconsin-Madison e membro da equipa, só aparecem nas condições extremas que surgem, por pouco tempo, no interior de estrelas moribundas. Encontrar tanto nióbio junto a esta anã branca indica que há ali matéria vinda das entranhas da estrela original.
Boris Gaensicke, coautor do estudo e também de Warwick, admite que ficou surpreendido, porque o elemento nunca tinha sido referido em nenhuma outra anã branca analisada. A equipa confirmou a leitura com dados do FUSE, um observatório ultravioleta da NASA já desativado, que mostram a mesma assinatura.
Um gigante gasoso a perder a atmosfera
O satélite TESS, da NASA, observou a estrela durante quatro meses e detetou variações periódicas de brilho compatíveis com um planeta a cerca de 6 milhões de quilómetros, muito mais perto do que Mercúrio está do Sol. Os investigadores estimam que seja um gigante gasoso do tamanho de Júpiter. Como a anã branca é recente e ainda está muito quente, estará a arrancar-lhe as camadas exteriores. Esse material pode formar uma cauda parecida com a de um cometa, alimentar um disco em redor da estrela e acabar por cair na superfície dela, e seria assim que o nióbio chegou ao sítio onde o Hubble o viu.
A cautela dos próprios autores merece ficar registada: trata-se de um planeta suspeito, inferido pela química e pelas variações de brilho, e não de uma deteção direta. Williams acredita que, se o planeta lá estiver, deverá sobreviver à perda de massa e ficar na zona habitável da estrela, estável durante milhões de anos, depois de esta arrefecer. Tenciona continuar a usar o Hubble nos próximos anos para perceber como se formam estes mundos e se são raros ou comuns. Para um telescópio lançado em 1990, a resposta estava num ficheiro com 27 anos.



