ESA
Sonda europeia Juice passou três horas na sombra da Terra e usou o eclipse para ensaiar a chegada a Júpiter
Na passagem pela Terra a 28 de setembro, a sonda que vai estudar as luas geladas de Júpiter ficou às escuras, a funcionar só com baterias. A ESA conta agora o que aprendeu: a bateria desceu a 54%, os instrumentos continuaram a trabalhar e um software de navegação foi testado pela primeira vez.

A sonda Juice, da Agência Espacial Europeia (ESA), passou pela Terra a 28 de setembro a caminho de Júpiter e, pelo caminho, fez um ensaio geral do que a espera daqui a cinco anos. A ESA divulgou esta semana os pormenores da operação: antes da maior aproximação, a nave ficou três horas mergulhada na sombra da Terra, sem luz do Sol nos painéis, e teve de funcionar apenas com baterias. É a situação que vai enfrentar muitas vezes quando estiver a estudar Júpiter e as suas luas geladas.
Uma curva de 20 graus a 8.640 km da Terra
Lançada a 14 de abril de 2023, a Juice não consegue atingir sozinha a velocidade necessária para ir diretamente a Júpiter. Usa a gravidade dos planetas para ganhar velocidade e mudar de direção, uma manobra chamada assistência gravitacional. A passagem de setembro foi a penúltima: a sonda aproximou-se até 8.640 km acima do oceano Índico, às 12:45 de Lisboa (13:45 na Europa Central), e saiu com a trajetória desviada 20 graus e mais 3,5 km/s de velocidade. Das seis correções de rota que estavam reservadas para as semanas anteriores, só foi precisa uma.
Segundo a ESA, a sonda já completou três das quatro passagens previstas. A última será pela Terra, em janeiro de 2029, para a colocar na rota final até Júpiter, onde chega em 2031. Lá, está planeado fazer 35 passagens rasantes pelas luas Ganimedes, Europa e Calisto.
O eclipse mais longo da missão
O eclipse começou na noite de 27 de setembro, quando a Juice entrou na penumbra às 21:30, hora da Europa Central. No total, passou três horas em sombra total e seis em sombra parcial. Para comparação, na passagem pela Lua e pela Terra em 2024 o eclipse tinha durado 32 minutos. Os controladores no centro de operações da ESA (ESOC) acompanharam a descida da energia dos painéis e o aumento do consumo da bateria, que chegou a 54% antes de os painéis voltarem a produzir, às 04:14 da Europa Central. O limite operacional estava fixado nos 35%.
O teste interessa porque, em Júpiter, a luz do Sol tem apenas 3% da intensidade que tem na Terra e os eclipses podem durar até cinco horas. A Juice depende de dois painéis solares com 85 metros quadrados no total, cerca de metade de um campo de voleibol. Para a responsável pelas operações da nave, Angela Dietz, esta foi "a primeira oportunidade de testar em voo essas condições de eclipse prolongado".
Instrumentos ligados e navegação autónoma
A equipa chegou a pensar que não haveria energia para a ciência durante o eclipse, mas acabou por manter vários instrumentos ativos. Os dez instrumentos da sonda participaram na campanha, embora não todos ao mesmo tempo. Foi também a estreia em voo do EAGLE, um software que usa as duas câmaras de navegação para seguir o contorno iluminado de uma lua e afinar a pontaria nas passagens rasantes; a geometria entre a Terra e a Lua serviu para imitar a de Júpiter e da lua Io.
Durante vários dias, a Juice atravessou ainda a cauda magnética da Terra e mediu campos magnéticos e partículas carregadas, em coordenação com a missão europeia e chinesa Smile. A ESA conta publicar nas próximas semanas as imagens da câmara científica JANUS, de maior resolução, depois de os dados chegarem à Terra e serem avaliados pelas equipas.



