Anthropic
Anthropic contrata cada vez menos juniores: só 9% das novas entradas técnicas são de início de carreira
A criadora do Claude estudou os próprios dados de emprego e concluiu que os agentes de IA já trabalham seis vezes mais horas do que os funcionários que os comandam. As vagas para juniores caíram a pique e, nas entrevistas, pesa mais a autonomia e o bom uso da IA do que o conhecimento técnico.

A Anthropic, a empresa que desenvolve o Claude, publicou um relatório sobre o que a inteligência artificial mudou no seu próprio quadro de pessoal, e o dado que mais salta à vista diz respeito a quem está a começar. Desde o início de 2025, a parte dos juniores nas contratações para funções técnicas caiu de 27% para 9%. Nos departamentos técnicos, os profissionais de início de carreira passaram de 21% para 14% do total. Segundo o estudo, assinado por quatro economistas da empresa, os anúncios de vagas para juniores caíram de forma particularmente acentuada desde dezembro de 2025.
Seis horas de agentes por cada hora humana
A empresa liga esta mudança ao uso intensivo de agentes de IA, programas que trabalham de forma autónoma durante muito tempo. Em março, as horas de trabalho dos agentes ultrapassaram pela primeira vez as dos funcionários, e em agosto os agentes lançados pelos trabalhadores já faziam seis horas por cada hora humana. A discussão interna sobre a menor necessidade de juniores começou em janeiro, nas equipas que mais delegavam no Claude tarefas como escrever código e encontrar erros. Em abril, as equipas de engenharia e investigação já tinham reduzido a contratação para os níveis mais baixos.
Os números de produtividade que a Anthropic apresenta são altos: os engenheiros fazem cinco vezes mais alterações ao código do que há seis meses, os advogados tratam mais contratos e os comerciais fecham mais negócios. A empresa reconhece que mais código não quer dizer código melhor, mas diz não ter encontrado diferenças na taxa de linhas que acabam apagadas ou revertidas. O relatório também aponta o reverso. As sessões com o Claude passam cerca de 80% do tempo à espera de uma pessoa, e só ler o que os agentes produzem ocuparia mais de metade da semana de trabalho, mesmo em funções não técnicas. O tempo em reuniões subiu 20% num ano.
O que pesa agora numa entrevista
Para quem procura emprego na área, a parte mais útil é a análise das fichas de avaliação dos candidatos. Em 2024, os entrevistadores referiam o historial do candidato com ferramentas de IA em cerca de 5% das avaliações para funções técnicas e 7% nas restantes. Em 2026, essas proporções triplicaram e quadruplicaram, respetivamente. Nas vagas técnicas, o que mais cresceu foram os comentários sobre autonomia e capacidade de decisão, enquanto o conhecimento especializado perdeu peso.
O caso tem limites claros. É uma única empresa, que vende a tecnologia que estuda e que triplicou de tamanho no último ano. Os autores admitem que muitas das suas práticas não se podem replicar no resto da economia, como a distribuição alargada de ações pelos trabalhadores. Ainda assim, escrevem que estes padrões, projetados para outras empresas, sugerem que a difusão da IA pode fazer perder postos de trabalho. A Anthropic diz ter criado um sistema de alerta para identificar funções em risco e dar prioridade à mudança interna de funcionários para outras áreas.



