IA da Google inventou crimes a um médico e tribunal alemão responsabiliza a empresa pelo que a pesquisa diz
O Modo IA atribuiu a um médico de Aachen uma agressão sexual e um processo judicial que pertenciam a outra pessoa. A Google recusou apagar o texto e o tribunal proibiu-a de o repetir, com multas até 250 mil euros. É a segunda decisão na Alemanha a tratar as respostas da IA como palavras da própria empresa.

Um tribunal alemão voltou a decidir que a Google responde pelo que a sua inteligência artificial escreve nos resultados de pesquisa. Segundo o site especializado The Decoder, que teve acesso à decisão, o Tribunal Regional de Aachen proibiu a empresa de continuar a mostrar três textos falsos que o Modo IA tinha gerado sobre um médico. A decisão, datada de 24 de setembro, é provisória e foi tomada com urgência, sem ouvir a Google primeiro. A empresa ainda a pode contestar, mas se a desrespeitar arrisca multas de até 250 mil euros por cada infração.
Uma acusação que pertencia a outra pessoa
O médico foi diretor de serviço e professor de neurorradiologia entre 2010 e o fim de junho de 2026. A 28 de agosto, um colega avisou-o de que a IA da Google explicava a sua saída com uma alegada agressão sexual a uma secretária. Quando se pesquisava por termos como "suspensão", "despedimento" ou "processo judicial", o Modo IA devolvia textos longos e detalhados, com um desfecho judicial inventado. Nada daquilo dizia respeito ao médico: a IA tinha juntado factos de outro antigo professor universitário e colado-os a ele, algo que o próprio tribunal confirmou nos seus registos, porque o processo-crime era contra outra pessoa.
O médico explicou a confusão à Google por email no fim de agosto e pediu a remoção dos textos. Em meados de setembro, a empresa respondeu que não ia fazer nada, e uma intimação formal enviada nesse dia também não teve efeito. Na decisão, o tribunal escreve que quem oferece pesquisa gerada por IA é também responsável pelas respostas que ela produz. Os juízes acrescentam que a Google podia verificar estes textos, por exemplo comparando-os com os sites de onde a IA tirou a informação.
O precedente de Munique e o que significa cá
Aachen apoiou-se numa decisão do Tribunal Regional de Munique, do fim de maio. Nesse caso, os resumos de IA da pesquisa tinham associado duas editoras de Munique a esquemas de burla, e o tribunal concluiu que esses resumos não são simples resultados de pesquisa, mas afirmações da própria Google. A empresa anunciou em junho que ia recorrer. Segundo o The Decoder, o recurso nunca chegou a ser decidido: o caso terminou num acordo, de termos desconhecidos, pelo que nenhum tribunal superior se pronunciou. Houve também uma decisão em sentido contrário em Berlim, no início de junho, num contexto diferente.
As decisões alemãs não se aplicam diretamente em Portugal, mas mexem com uma ferramenta que já usas cá. O Modo IA chegou à Pesquisa Google em português de Portugal a 7 de outubro de 2025, como separador na página de resultados e na app Google para Android e iOS. Se a tese de Munique e de Aachen vingar num tribunal superior, a Google pode ter de responder como autora por cada erro grave que a IA cometa sobre uma pessoa ou uma empresa.



