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Biocomputação

Mini-cérebros cultivados em laboratório ajudam a reconhecer letras em braille com 83% de acerto

Em Bristol, investigadores ligaram um sensor tátil robótico a pequenos aglomerados de neurónios humanos e conseguiram identificar as 26 letras do alfabeto braille a partir da atividade elétrica desses tecidos. A área chama-se inteligência organoide e procura computadores que gastem muito menos energia.

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Mão com luva verde segura um frasco de cultura visto por baixo, com dezenas de pequenos aglomerados amarelados de organoides cerebrais em líquido
Organoides cerebrais humanos num frasco de cultura, num laboratório do NIAID, nos EUA. NIAID / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Uma equipa da Universidade de Bristol, no Reino Unido, pôs pequenos aglomerados de neurónios humanos cultivados em laboratório a participar na leitura de braille. Os investigadores ligaram um sensor tátil, montado num braço robótico, a organoides cerebrais, pequenas estruturas tridimensionais de tecido nervoso humano, com cerca de meio milímetro de diâmetro. A partir da atividade elétrica desses tecidos, um programa conseguiu dizer qual das 26 letras o sensor estava a tocar. O estudo, assinado por Tianyi Liu, Hemma Philamore e Benjamin Ward-Cherrier, foi publicado a 16 de outubro na revista Frontiers in Artificial Intelligence.

Como a experiência funcionou

O sensor usado, o Evetac, combina uma pele artificial com marcadores e uma câmara de eventos, e foi passado por cima de uma placa impressa em 3D com as 26 letras do alfabeto em braille. Os dados do toque foram convertidos em padrões de impulsos elétricos e enviados a organoides do prosencéfalo humano, assentes em pequenas grelhas com oito elétrodos cada. Os organoides não estavam em Bristol: a equipa usou à distância uma plataforma da empresa FinalSpark, que mantém estes tecidos vivos e dá acesso a eles pela internet. A resposta dos neurónios a cada estímulo foi depois analisada por um classificador de aprendizagem automática.

Com um único organoide, o sistema acertou em média em 61% das letras. Juntando as respostas de três organoides, a taxa subiu para 83%, quando escolher ao acaso daria 3,85%. O conjunto de três também se portou melhor quando os investigadores introduziram ruído, valores fora do normal ou canais sem dados, comparado com um só organoide e com a leitura direta dos próprios estímulos.

Porque interessa e o que falta provar

A motivação é energética. Os autores lembram que o cérebro humano faz cálculos complexos com cerca de 20 watts, enquanto os chips que tentam imitá-lo à mesma escala gastariam, segundo as projeções que citam, entre quilowatts e megawatts. Os organoides são vistos como uma via possível para computadores de muito baixo consumo, sobretudo em robótica, numa área que já tem nome próprio, a inteligência organoide.

O estudo é cauteloso sobre o que demonstra. Os próprios autores escrevem que a experiência deve ser lida como um teste de codificação e descodificação de sinais e não como prova de que os organoides aprendem, porque a informação seguiu num só sentido, sem resposta de volta. O passo seguinte, dizem, é montar sistemas em circuito fechado, em que a atividade dos neurónios influencia os estímulos seguintes. Segundo o artigo, organoides como estes podem manter-se ativos até cerca de cem dias em boas condições, e o trabalho usou material já existente, sem novas recolhas de células a pessoas.

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