Economia
BCE avisa que a IA pode enfraquecer o poder negocial dos trabalhadores e travar os salários na zona euro
Philip Lane, da Comissão Executiva do Banco Central Europeu, diz que o emprego ainda não mudou, mas que a simples possibilidade de substituição por IA pode pesar nos aumentos. Mais de metade dos trabalhadores da zona euro já usa IA no emprego, segundo os inquéritos do banco.

A inteligência artificial ainda não mexeu de forma visível no emprego da zona euro, mas pode já estar a pesar nos salários. O aviso é de Philip Lane, membro da Comissão Executiva do Banco Central Europeu (BCE), num discurso feito a 13 de outubro numa cimeira sobre IA em Dublin e publicado no site do banco. Segundo Lane, a possibilidade de alguns trabalhadores serem substituídos pela IA pode reduzir a força com que negoceiam, moderar os aumentos e baixar a parte do rendimento total que vai para o trabalho.
O responsável sublinha que não há, para já, uma alteração grande nas tendências de emprego. Os planos de contratação das empresas estão, porém, contidos, e isso afeta em particular quem acabou o curso e procura o primeiro emprego. Os inquéritos do BCE mostram ainda diferenças entre setores: quem trabalha em áreas que beneficiam da construção de centros de dados e outra infraestrutura de IA está mais otimista do que quem está em setores de conhecimento, onde o risco de substituição é maior.
Quantos já usam IA no trabalho
Os números citados por Lane vêm dos inquéritos do próprio BCE. No inquérito às famílias, 52% dos trabalhadores dizem usar IA no emprego, o dobro dos 26% registados em 2024. Os ganhos de tempo existem, mas concentram-se em alguns setores e em tarefas específicas, como a programação. Do lado das empresas, 64% disseram no último trimestre de 2025 que usavam IA de forma experimental ou moderada, e só 7% descreveram esse uso como significativo.
O investimento acompanha a tendência. As empresas da zona euro devem dedicar cerca de 10% do investimento total à IA este ano, e os empréstimos ligados à IA representam perto de um quarto do crescimento recente do crédito às empresas. Ainda assim, o BCE considera que é cedo para medir um efeito na produtividade da economia como um todo.
A Europa atrás dos Estados Unidos
O discurso põe a escala europeia em perspetiva. Nos últimos dois anos, o investimento digital nos Estados Unidos cresceu ao dobro do ritmo da zona euro, e os trabalhadores norte-americanos passam duas a três vezes mais tempo da semana a usar IA do que os das maiores economias do euro. Lane cita o índice de IA da Universidade de Stanford: os Estados Unidos produziram 59 modelos de IA considerados relevantes, a China 35, e a França e o Reino Unido um cada. Na capacidade de computação, os Estados Unidos têm 75% do total mundial e a Europa 5%.
Há também um efeito nos juros. O BCE admite que a corrida global ao investimento em IA está provavelmente a contribuir para a subida das taxas de juro de longo prazo, o que aperta as condições de financiamento na zona euro e entra nas contas da política monetária. O banco diz ainda acompanhar o risco de uma correção nas avaliações das empresas de IA e na vaga de dívida emitida no mundo para financiar a IA. O discurso não traz números por país, pelo que não há, para já, uma leitura do BCE específica para Portugal.



