Antártida
Glaciar Thwaites pode fazer subir o mar o dobro do previsto até 2100, mesmo sem mais aquecimento, diz estudo
Um modelo desenvolvido no laboratório JPL da NASA percebeu melhor o que se passa onde o gelo deixa de assentar no fundo e começa a flutuar. O resultado aponta para até 30 milímetros de subida do mar só por causa deste glaciar, e para a perda do apoio que o segura já em 2038.

O glaciar Thwaites, na Antártida Ocidental, pode fazer subir o nível médio do mar até 30 milímetros (com uma margem de 6 para cima ou para baixo) até ao fim do século. É cerca do dobro do que apontavam projeções anteriores, segundo um estudo publicado a 12 de outubro na revista Nature Communications e divulgado pela NASA a 20 de outubro. O trabalho usa um modelo criado no Jet Propulsion Laboratory (JPL), da NASA, com a Universidade da Califórnia em Irvine e o Dartmouth College. A conclusão mais incómoda é que este valor não depende de mais aquecimento: o cenário usado mantém as condições climáticas médias de 1996 a 2023.
O que muda neste modelo
O Thwaites é um dos glaciares que mais preocupam os cientistas. Faz parte do setor do mar de Amundsen, responsável por cerca de um terço do gelo que a Antártida perde, e guarda gelo suficiente para subir o mar 65 centímetros, se derretesse por completo. O problema para quem faz projeções está na fronteira entre o gelo que assenta no fundo do mar e o que já flutua.
A maioria dos modelos trata essa fronteira como uma linha. Os autores, entre os quais Eric Rignot, da Universidade da Califórnia em Irvine, tratam-na como uma faixa: a água do mar, mais quente, entra entre 2 e 5 quilómetros por baixo do gelo assente, ajudada pelas marés, e derrete-o por baixo. Só com essa faixa o modelo conseguiu reproduzir quase três décadas de recuo, adelgaçamento e aceleração do glaciar. Segundo a NASA, o ajuste aos dados de satélite desde os anos 1990 ficou quatro vezes melhor do que o dos modelos que ignoram o fenómeno.
A crista que segura o glaciar
Hoje, o Thwaites está preso a uma elevação do fundo do mar chamada crista Mouginot, a cerca de 950 metros de profundidade, que trava o recuo. O estudo conclui que é a água que entra por baixo do gelo que decide quando o glaciar se solta. Nas simulações com faixas de 4 a 6 quilómetros, as mais próximas do que os satélites observaram nesta década, a probabilidade de passar a crista antes de 2100 ronda os 60%. Com 5 a 6 quilómetros, isso pode acontecer já em 2038.
As projeções do estudo ficam na metade superior do intervalo do ISMIP6, o exercício internacional que compara modelos da camada de gelo, e que dava, em média, 15,2 milímetros para este glaciar. Os autores notam que nenhuma das suas simulações mostra o glaciar a abrandar ou a estabilizar durante o século. A NASA diz que o modelo pode dar informação mais fiável às zonas costeiras mais expostas à subida do mar, mas o estudo não traça cenários para regiões concretas, como a costa portuguesa.



